Distrito Federal

Coluna

A cidade das ruas sem nomes

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A lógica cartesiana impera nos caminhos traçados por Lúcio Costa e Niemeyer. - Divulgação
As ruas em Brasília não têm nome, mas, tem história, sotaque, cor e jeitinho de celebrar a vida.

Ainda existe amor em BSB. 

Sua geometria, seus traços planejados não são desprovidos de vida. Apesar de suas ruas sem nomes, os calçamentos da capital guardam suas histórias debaixo de cada pedrinha. 

As ruas de Brasília têm memória; são imóveis no espaço, mas se movem no tempo como qualquer rua; se transformam.

Nasci em Brasília, mas me mudei logo bebê da cidade. Morei no interior paulista durante a infância e só voltei à capital do país em 2005. Lembro-me do choque inicial com a minha cidade. A cidade que eu havia nascido, mas não me reconhecia parte dela. Na primeira semana tive que tomar um ônibus para ir à escola. Coisa que eu fazia a pé ou de bicicleta.

Não deu outra: errei o ponto de descida. “Mas em que rua moço?”. “Desce nas 300”. “É o que?”.

Demorei me acostumar com as siglas e números de Brasília. Mas uma vez habituado, me achava em todo canto. 

A lógica cartesiana impera nos caminhos traçados por Lúcio Costa e Niemeyer. 

Se estivermos de um lado da cidade, só há quadras ímpares, e vice-versa.

 A progressão numérica das quadras pode parecer um elemento facilitador para os turistas, mas a verdade é que nunca vi alguém de fora dizer que em Brasília é mais fácil de achar os endereços.

 Me pergunto se no século do GPS ainda é necessário que Brasília preserve esse espírito cartesiano. 

Por que não ressignificar seus espaços, suas quadras/bairros, suas ruas sem nomes? 

A vontade é de fazer como Thiago de Mello, no “Estatutos do Homem”, e baixar um decreto poético para renomear as ruas e fundar as esquinas da capital.

Mas aí mora um perigo.

 Por sua vocação nacional, de capital política, muitos nomes sugeridos pelos que têm as rédeas da cidade seriam importados de fora, homenagens aos donos do poder.

 O decreto utópico deveria garantir em seus dispositivos que os nomes fossem nativos, candangos, brasilienses que fizeram história nessas terras, muitas vezes histórias anônimas ou quase esquecidas pelo roteiro oficial.

O batizado das ruas seria um grande evento na cidade.

Uma celebração carnavalesca. 

Ocuparíamos as ruas com fantasia e alegria para fundar as esquinas e inaugurá-las como pontos de encontro. 

A cidade seria vista não como um avião, planejado e fabricado, mas como um pássaro, uma pequena libélula. 

As cidades ao redor não seriam mais vistas como satélites, e sim como uma revoada de passarinhos dentro do “quadradinho de Goiás”, como dizem os goianos.

A principal de Sobradinho poderia se chamar Seu Teodoro, em memória ao mestre que fundou a primeira festa de bumba-meu-boi do DF.

A rua que corta as lojas comerciais da 303 e 302 da Asa Sul, se chamaria Renato Russo, em homenagem ao músico que morou num daqueles blocos. 

Assim como a rua em frente ao antigo bar Bom Demais na 706 norte poderia ser batizada de Cássia Eller, onde a artista começou seus shows na década de 80. 

Mas não só de nomes de gente poderiam ser batizadas as ruas. 

A principal que corta o Guará 1 poderia se chamar Avenida, ou Rua Mutirão. Afinal o Guará começou inicialmente sem planejamento, com uma vila de trabalhadores que construíram suas casas em mutirão.

 Nomear uma rua é também celebrar uma história coletiva.

A rua tem alma, dizia João do Rio. 

O cronista tem razão. As ruas em Brasília podem não ter nome, mas tem alma, cor, história, sotaque, jeito de cantar, e jeitinho de celebrar a vida ocupando a cidade com amor, apesar dos maus políticos que insistem em parasitar a Esplanada.

* Diego Ruas é escritor, designer e engenheiro florestal.

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Edição: Márcia Silva