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Coluna

Comida no prato tem que ser comida de verdade!

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Cardápio colorido e saboroso - Ecilia Larissa / Comunicação MTD
É necessário que fiquemos atentos a essas movimentações “bem intencionais”.

Tem sido noticiado na mídia a benevolência da Ambev ao propor doar 270 mil unidades de uma bebida à base de água e malte sabor chocolate para duas entidades que assistem famílias de São Paulo e do Rio de Janeiro.

A bebida foi produzida a partir de parcerias com outras gigantes da indústria de alimentos e bebidas, como a Tetra Pak, GlobalFruit, Smurfit Kapa, Vogler, MCassab, Tereos e Primeserv.

Com escritos como “#AlémDosRótulos” e “juntos somos mais fortes”, o alimento pronto para o consumo enriquecido com vitaminas sabor chocolate – sim, esse é o nome da bebida – tem como propósito contribuir de forma complementar na alimentação de pessoas em vulnerabilidade social.

  Não é a primeira vez e provavelmente não será a última que produtos que reduzem a ideia de comida a de nutriente são propagandeados como contribuidores na solução da fome e da insegurança alimentar.

Lembremos quando em 2017, o então prefeito de São Paulo, João Dória, lançou um granulado comestível a base de ingredientes liofilizados que iriam ser descartados, a Farinata, para ser distribuída na merenda escolar e para famílias em vulnerabilidade social, política esta que foi fortemente combatida pela pressão popular e não foi implementada.

Esse tipo de iniciativa, seja através do poder público ou pela complacência de empresas privadas rompem com qualquer perspectiva de garantia do Direito Humano à Alimentação.

Reforça a ideia de que o atual modelo hegemônico do nosso sistema alimentar consegue através do mercado garantir a segurança alimentar da população, e, caso isso não ocorra, a caridade através das “sobras” da produção ou pela criação de produtos através de subprodutos.

Nesse sentido, essas soluções, como a da bebida sabor chocolate a base de água e malte, pode abrir brechas para que haja um incentivo a compra e distribuição pública desse tipo de produto, rompendo as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira, aumentando a probabilidade do desenvolvimento de doenças associadas à alimentação, reforçando o consumo de ultraprocessados, o lucro dessas grandes empresas, e ainda, tornar-se mais um produto no leque de ultraprocessados cada vez mais presentes em nossas mesas.

É necessário que fiquemos atentos a essas movimentações “bem intencionais”.

Saídas

Posto isso, as saídas para nossos desafios frente à crise alimentar atual não encontram fundamentos nesse tipo de ação que pode ser mais considerado uma ação de marketing ou aceitabilidade de um determinado produto ultraprocessado, sendo fundamental um conjunto de políticas sociais e econômicas que promovam a Soberania e a Segurança Alimentar uma necessidade humana e não o alimento como necessidade do capital, dimensões desconhecidas no atual Governo Federal.

As soluções da fome estrutural e da insegurança alimentar não são encontradas na oferta de alimentos ultraprocessados, e muito menos, na caridade ou através do mercado. Precisamos de comida de verdade no prato, no estômago e no imaginário, precisamos de comida socialmente referenciada, que potencialize nossas capacidades enquanto ser social.

Nesse ambiente marcado pela hegemonia das grandes corporações no nossos sistema alimentar e a austeridade e o autoritarismo do Governo Federal, falar em Direito Humano à Alimentação é mais que urgente, sendo necessário articular as lutas pelo Fora Bolsonaro às iniciativas populares, como as campanhas de solidariedade pautadas principalmente na oferta de alimentos in natura e minimamente processados e no trabalho popular, a construção de cozinhas comunitárias, hortas e outras formas de arranjos locais que incidam na garantia de um alimento digno, trabalho e renda.

Queremos comida (de verdade) no prato, vacina no braço e Fora Bolsonaro!

 

* Olivio José da Silva Filho é gastrônomo, doutorando em Política Social pela Universidade de Brasília, militante do Levante Popular da Juventude e da Consulta Popular.

 

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa  a linha do editorial  do jornal Brasil de Fato - DF.

Edição: Márcia Silva